Guardar as próprias sementes é o projeto mais barato de uma horta de varanda: a pimenta mais gostosa, o tomate que deu certo, a flor que atraiu abelhas. Em 2025, a Embrapa publicou um guia para guardiãs e guardiões de sementes crioulas, com procedimentos simples, sem equipamento, que servem muito bem para guardar sementes em casa.
Como este guia foi feito: este texto se baseia na Circular Técnica 99 da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (2025), lida na íntegra. O que é adaptação para varanda aparece marcado como inferência. Não há relato de experiência própria aqui: os números vêm das fontes listadas no fim.
O que são sementes crioulas
Pela Lei nº 10.711/2003, são variedades desenvolvidas, adaptadas ou produzidas por agricultores familiares, assentados da reforma agrária ou indígenas, com características reconhecidas pelas comunidades e diferentes das cultivares comerciais. A circular lembra que elas carregam a identidade e a história de quem as guarda.
Inferência para a varanda: sementes de cultivares híbridas comerciais podem não repetir a planta-mãe. Para guardar, prefira variedades abertas e crioulas.
Passo 1: secar do jeito certo
- Nunca em contato direto com o solo, com o sereno, com o sol muito quente ou com ambiente úmido.
- Ao sol: sobre pano, papel ou peneira, até as 9h. Depois, local fresco e arejado, e de novo ao sol após as 16h, até o anoitecer. Repita até secar.
- À sombra: em época seca, em lugar arejado.
- Em época de chuva: em recipiente tampado, misturadas com casca de arroz seca ou carvão (1 medida para 3 de sementes) ou sal grosso em camadas (1 medida para 2 de sementes), trocando o secante periodicamente.
- Revire as sementes para secarem por igual.
Passo 2: saber se já estão secas
| Teste | Úmida | Seca |
|---|---|---|
| Apertar com a unha | Fica a marca | Não marca |
| Morder com cuidado | Fica a marca da mordida | Não marca |
| Chacoalhar num pote tampado | Som abafado e grave | Som aberto e agudo |
| Esfregar nas mãos | Cheiro da espécie, como na colheita | Geralmente sem cheiro |
| Teste do sal: 8 medidas de semente + 1 de sal seco, agitar 15 s, esperar 10-15 min, virar o frasco | Sal grudado na parede | Sal solto |

Passo 3: embalar e etiquetar
- Embalagem limpa, seca e sem furos: frasco de vidro, garrafa PET, saco plástico grosso, saco de papel ou lata com tampa.
- Poucas sementes ou sementes pequenas: frascos ou garrafas PET pequenas.
- Etiqueta com nome da planta, data de colheita, data de armazenamento e quantidade.
- Sementes trocadas, doadas ou compradas: anote também de quem vieram.
Passo 4: onde guardar
- Sementes de hortaliças: em sacos de papel dentro da geladeira. Sem geladeira, em recipiente tampado e vedado.
- Proteção natural contra insetos: a circular cita areia, cal ou cinza (100 g por kg de sementes), folhas de louro, eucalipto, manjericão ou alecrim (40 g por kg) e pimenta-malagueta seca e moída (10 g por kg).
- Vedação: com cera de abelha ou parafina, untada com óleo para não ressecar.
Importante saber: nem toda semente aguenta secar. A circular cita sementes recalcitrantes, como açaí e cacau, e intermediárias, como café e citros, que perdem a viabilidade guardadas. Para essas, a recomendação é fazer a muda logo após tirar do fruto. Muitas frutíferas nativas, como as do gênero Eugenia, seguem a mesma lógica. Veja Uvaia (Eugenia pyriformis).
Na varanda (inferência)
- Escolha a planta mais sadia e produtiva para colher a semente.
- Uma prateleira com potes etiquetados vira um pequeno “banco de sementes” para trocar com vizinhos.
- Comece pelas fáceis: pimentas, tomate-cereja, capuchinha e coentro.
Conclusão
O método da Embrapa para sementes crioulas cabe numa varanda. Seque sem sol forte nem sereno, confira com os testes da unha, do som e do sal, guarde em pote limpo e etiquetado e, para hortaliças, use saco de papel na geladeira. Sementes de frutas carnosas nativas costumam ser exceção: plante logo.

