Criar jataí na varanda deixou de ser coisa de sítio. O livro Meliponicultura: o produtor pergunta, a Embrapa responde (2024) é direto: “o jardim de uma casa ou a varanda de um apartamento podem, também, ser considerados meliponários”. Mas antes de comprar a caixa é preciso entender a regra federal, os cuidados com formigas e luz, e o que a abelha precisa encontrar por perto.
Como este guia foi feito: este texto se baseia no livro Meliponicultura, da coleção 500 Perguntas 500 Respostas da Embrapa (2024), lido na íntegra, e em um resumo técnico da Embrapa Amazônia Oriental sobre a legislação. O que é adaptação para varanda aparece marcado como inferência. Ninguém da equipe está relatando uma experiência própria aqui: os números vêm das fontes listadas no fim.
Quem é a jataí
A jataí (Tetragonisca angustula) é uma abelha da tribo Meliponini, as abelhas-nativas-sem-ferrão. A Resolução Conama nº 496, de 19 de agosto de 2020, define esse grupo como abelhas de ferrão atrofiado e hábito social.
- Nomes populares: jataí, jati, jatei, alemãozinho, mirim e mosquitinho.
- Onde é criada: aparece nas listas da Embrapa das espécies mais criadas no Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
- Temperamento: está na lista das dóceis, ao lado da mandaçaia, da guaraipo e da iraí.
- Cidade: segundo o livro, resiste bem a ambientes alterados pelo homem, ao contrário de muitas Melipona, que dependem de áreas conservadas.
A entrada do ninho tem um tubo de cera característico, com operárias de guarda, como na foto de capa. A jataí também se defende grudando pelotas de resina vegetal em formigas e outros invasores.
A regra federal em três frases
- A criação deve ficar restrita à região de ocorrência natural da espécie, conforme o Catálogo Nacional de Abelhas-Nativas-Sem-Ferrão do ICMBio (Portaria MMA/ICMBio nº 665, de 3 de novembro de 2021).
- Criar fora dessa região exige autorização do órgão ambiental, depois de análise de risco.
- Transportar colônias exige autorização ambiental para qualquer criador, independentemente do número de colmeias e do objetivo. Entre estados, pede autorização na origem e no destino, além da Guia de Trânsito Animal (GTA).
O livro acrescenta um ponto decisivo para quem mora em cidade: o meliponário precisa respeitar a lei de uso e ocupação do solo do município, “incluindo a possibilidade ou não de criação de abelhas-sem-ferrão em áreas urbanas”. Então a regra do seu município vale tanto quanto a federal.
Importante saber: o resumo técnico da Embrapa Amazônia Oriental mostra que, no Pará, a regularização passa por vários órgãos e que a falta de informação dificulta a formalização. Antes de comprar uma colônia, consulte o órgão ambiental do seu estado e prefira meliponicultores regularizados.
Onde pôr a caixa na varanda
O livro descreve exatamente o caso da varanda. Muitos criadores mantêm as caixas em alpendres ou varandas, protegidas do vento, do sol direto e de furtos. E aponta duas desvantagens:
- As luzes da casa enganam e atraem as abelhas à noite.
- Caixas instaladas no alto, perto do teto, dificultam a inspeção e o manejo.
Outras recomendações da Embrapa para o local:
- Sombra e ventilação, perto de água limpa. As abelhas usam água no metabolismo e para baixar a temperatura da colônia no calor.
- Evitar áreas elevadas, mais expostas ao vento. Inferência: em prédio, os andares altos e as varandas de quina pedem um anteparo.
- Se o sombreamento for artificial, usar tela com mais de 80% de retenção solar. Telha de fibrocimento esquenta muito: a Embrapa sugere pintá-la de branco fosco. Nunca use telha de amianto.
- Para jataí, a distância entre colmeias pode chegar a 1,5 m, para evitar brigas entre colônias.

Formigas: o inimigo de varanda
Formigas como a sarassará (Camponotus) e a lava-pés (Solenopsis) estão entre as pragas citadas pela Embrapa. As medidas do livro:
- Vedar todas as frestas da caixa com fita adesiva, resina, cera ou cerume.
- Nunca pôr a caixa direto no chão.
- Proteger os pés do suporte com graxa, estopa com óleo ou uma garrafa PET cortada e invertida, lambuzada por dentro. Renove a graxa quando ressecar.
- Afastar galhos e vasos que encostem na caixa e sirvam de ponte.
- Não deixar potes de alimento abertos.
Se a varanda tem formigas cortadeiras, veja também Formigas cortadeiras em vasos e sacadas.
O que plantar para a jataí
A jataí voa num raio menor que 1 km, segundo a Embrapa. Por isso, o que existe perto do prédio pesa muito. A recomendação é ter plantas que forneçam pólen e néctar, com floradas em épocas diferentes.
- Flores pequenas e abertas, de acesso fácil. Ideias em Como montar um jardim para polinizadores em uma varanda pequena.
- Evite depender de plantas tóxicas. O livro cita a espatódea (Spathodea campanulata) e a sibipiruna como prejudiciais a várias abelhas. O risco é maior quando elas são a única fonte de alimento.
- Agrotóxicos na varanda e no entorno podem matar a colônia.
Dá para tirar mel?
Dá, mas com moderação. A jataí é uma abelha pequena, e o livro da Embrapa trata a produção de mel como algo que depende de florada, manejo e caixa modular. Em caixas grandes demais, a colônia gasta mais energia para controlar a temperatura e se defender. Para a varanda, o ganho principal é a polinização e a observação de uma espécie nativa.
Conclusão
A varanda pode ser um meliponário: quem diz é a Embrapa. A jataí é dócil e tolera a cidade. O caminho certo é conferir a regra do seu município e do seu estado, comprar de criador regularizado, pôr a caixa na sombra, longe das luzes e protegida de formigas, e cuidar das flores num raio de poucas centenas de metros.
Fontes
- DRUMOND, P. M. et al. (ed.). Meliponicultura: o produtor pergunta, a Embrapa responde. Brasília: Embrapa, 2024. 222 p. (Coleção 500 Perguntas 500 Respostas).
- CHAVES, E. P.; COUTO, H. A. R. Análise crítica sobre a regularização ambiental de meliponário no estado do Pará. Belém: Embrapa Amazônia Oriental.

