Alfavaca-de-caboclo é o nome mais comum de Hyptis suaveolens, uma planta aromática
que nasce sozinha em beira de estrada, terreno baldio e canteiro. A Embrapa registra que ela ocorre
espontaneamente em todo o território brasileiro e a trata como invasora; também a estudou como
planta cultivada, com método de muda, espaçamento e ponto de colheita. Em muitos bancos de imagens ela aparece sob
o nome mais novo, Mesosphaerum suaveolens. Este guia junta o que a Embrapa mediu com o que quatro outros
trabalhos mostram sobre cheiro, semente e invasão, e diz o que dá para aproveitar numa varanda.
Como este guia foi feito: a base é o documento Cultivo de plantas aromáticas, da Embrapa
Agroindústria Tropical (2017), lido na íntegra. Ele descreve cultivo em canteiro. Os números de germinação vêm de
dois estudos brasileiros (UFLA, 2008; Embrapa Milho e Sorgo, 2006), a biologia da invasão vem de um estudo feito na
Índia, e a composição do óleo de um trabalho de conclusão de curso da UFPB. O que é adaptação para vaso aparece
marcado como inferência. Ninguém da equipe está relatando experiência própria aqui, e este site
não faz orientação de saúde.
Quem é e por que tem tantos nomes
- Nome científico: Hyptis suaveolens (L.) Poit., família Lamiaceae. O gênero tem cerca de
400 espécies, a maioria nativa da América tropical. - Nomes populares: a Embrapa lista alfavacão, alfavaca-de-caboclo, alfazema-brava,
alfazema-de-caboclo, bamburral, cheirosa, salva-limão, chá-de-frança, melissa-de-pison e celine. O estudo da UFLA, citando
Lorenzi e Matos, soma sambacoité, mentrasto-do-grande, betônica-brava, são-pedro-caá, pataquera e
betônia-branca. Se você procurar por “betônica” em trabalhos de plantas daninhas, é a mesma planta. - Origem e ciclo: nativa do continente americano e anual.
- Altura: a Embrapa fala em até 1 m. O estudo da UFLA registra de 0,5 a 1,9 m e até 3 m,
dependendo do ambiente.

Como reconhecer
A descrição da Embrapa: subarbusto ereto e ramificado, de caule quadrangular e verde a acinzentado;
folhas opostas, ovais, de ponta aguda e margem serrilhada; flores pequenas, sem
cabinho, reunidas em grupos nas axilas das folhas da ponta dos ramos, protegidas por brácteas finas de cor
azul-rosada. O estudo na Índia acrescenta que a corola é azul, com dois lábios, e que o cálice, de 5 mm na flor,
cresce até 10 mm no fruto e fica com nervuras (e espinhos, na foto abaixo).

Há uma confusão possível com outra “alfavaca” da mesma fonte, a
alfavaca-de-galinha (Ocimum micranthum). A comparação, pelas descrições da Embrapa:
| Alfavaca-de-caboclo | Alfavaca-de-galinha | |
|---|---|---|
| Nome científico | Hyptis suaveolens | Ocimum micranthum |
| Hábito | subarbusto anual, até 1 m | pequeno arbusto |
| Caule | quadrangular, ramificado | pouco pubescente |
| Flores | pequenas, nas axilas, com brácteas azul-rosadas | corola com lábio superior branco e inferior violeta |
| Semente | dentro de cálice espinhoso (estudo da Índia) | núculas negras e lisas |

O cheiro depende de quem mede
É a aromática mais citada pelo óleo essencial, e aqui está o ponto que quase ninguém conta: a
composição muda muito de planta para planta. Os números que li:
- Embrapa (citando Silva et al., 2004): as folhas têm 3,6% de óleo e as
inflorescências só 0,02%. O eugenol chega a 77,3% do óleo das folhas e a 50,17% do
das inflorescências. - UFPB (2015): numa amostra de parte aérea, o composto principal foi o
eucaliptol (1,8-cineol), com 35,8%, em 94,31% do óleo identificado. - UFLA (2008): a introdução do estudo cita outros trabalhos que associam o óleo a D-limoneno e
mentol.
Três pesquisas, três compostos dominantes. Inferência: a sua planta pode cheirar diferente da
de outra região, e nenhum desses números diz como a sua vai cheirar. Quem quer só a planta de perfume deve
cheirar a muda antes de comprar. O trabalho da UFPB é um TCC de graduação, não artigo revisado por pares, e está
aqui como mais um ponto de comparação, não como padrão.
A semente: o que o laboratório mediu
A alfavaca-de-caboclo se propaga por semente. Para saber em que condições ela nasce, a UFLA testou sementes
colhidas em Mossoró (RN), 200 por tratamento, por 30 dias:
| Temperatura | Com luz | No escuro |
|---|---|---|
| 20 °C | 25,5% | 5,5% |
| 25 °C | 88,5% | 34,0% |
| 30 °C | 82,5% | 37,0% |
| 20-30 °C (alternada) | 90,5% | 28,0% |
Leitura dos números:
- A luz pesa muito. Em todas as temperaturas a germinação com luz foi maior que no escuro.
- O frio atrapalha. A 20 °C constantes, só 25,5% nasceram, e no escuro o primeiro broto levou sete
dias. A 30 °C e na alternância de 20 a 30 °C, a raiz apareceu em menos de 24 horas. - Algumas sementes ficam esperando. No fim do teste, todas as que não tinham germinado ainda
estavam vivas, o que indica certo grau de dormência. - As sementes soltam um gel ao molhar, feito de cerca de 60% de carboidratos e 40% de proteínas.
Um segundo estudo (Embrapa Milho e Sorgo e universidades, 2006), com luz contínua, teve o melhor resultado a
30 °C: 100% de germinação, contra 51% a 25 °C, 56% a 35 °C, 18,8% a 20 °C, 6,5% a 40 °C e 2,5% a
15 °C. Repare que o resultado a 25 °C é muito diferente do estudo da UFLA (88,5% contra 51%): são lotes de sementes de
lugares diferentes, e a resposta varia entre populações.
Inferência para a varanda: semeie na superfície, sem enterrar fundo, em época quente, e não
conte com germinação em dia frio.
O método de muda da Embrapa
O documento descreve uma alternativa à semente, a estaca:
- estacas apicais, medianas ou basais, de 10 a 20 cm, com três gemas;
- plantio em vasos plásticos de 10 litros;
- substrato de areia lavada, composto orgânico e solo de barranco peneirado, na proporção 2:1:1;
- irrigação diária, com regador manual.
Depois de 40 dias no viveiro, a muda vai para o local definitivo, com espaçamento de
1 m entre fileiras e 0,50 m entre plantas e 4 kg/m² de esterco bovino curtido.
A primeira colheita vem aos 90 a 120 dias, cortando a 25 cm do solo.
A tabela-resumo do mesmo documento traz uma variante por semente, com transplante de 30 a 60 dias depois da semeadura e
colheita de 3 a 4 meses após o plantio.
Inferência para vaso: o espaçamento de canteiro dá cerca de 0,5 m² por planta, o que num vaso
significa uma planta por vaso grande. O próprio método da Embrapa usa 10 litros na fase de muda, e
a escolha do tamanho do vaso deve seguir o porte (uma planta que chega a 1 m). Como a germinação pede
luz e calor, escolha o ponto mais ensolarado e confira
quantas horas de sol a varanda recebe; o substrato precisa drenar bem.

Por que ela invade (e como não deixar)
O estudo feito na Índia, onde a espécie é invasora, lista o que lhe dá vantagem:
- mais de 2.000 sementes por metro quadrado, formando um banco de sementes que dura;
- dois tipos de semente (dimorfismo), que germinam em faixas diferentes de temperatura e luz;
- flores visitadas por muitos polinizadores, o que gera enorme produção de sementes;
- o fruto no cálice espinhoso, que gruda em lã, pelo, roupa e máquinas e ainda flutua na água;
- o óleo essencial, que a torna pouco palatável ao gado e, segundo os autores, pode ter efeito sobre plantas
vizinhas (esse efeito não está bem documentado).
No Brasil, o resumo da Embrapa Milho e Sorgo a descreve como planta infestante de diversas culturas.
Inferência para a varanda: corte as hastes antes de o cálice endurecer e ficar espinhoso,
não jogue as pontas floridas no jardim vizinho e use luvas para tirar os frutos secos. A boa notícia é que, por
ser anual, ela some sozinha quando você deixa de espalhar semente. Como ela atrai polinizadores, vale pensar nela
junto de um jardim para polinizadores em varanda pequena.
Usos e o que as fontes não dizem
A Embrapa registra o uso popular, no Nordeste, em infuso, indicado como carminativo e para distúrbios
gastrintestinais, e menciona atividade bactericida e fungicida do óleo em estudos de laboratório. O estudo da UFLA
cita ainda trabalhos com ação larvicida sobre o mosquito Aedes aegypti. São resultados de
laboratório com extratos e óleo, e não medem o efeito de uma planta viva num vaso: ter alfavaca-de-caboclo
na varanda não é proteção contra mosquito. Para qualquer uso medicinal, procure um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Alfavaca-de-caboclo é a mesma planta que betônica-brava?
Sim. Os estudos de plantas daninhas chamam de betônica a mesma Hyptis suaveolens.
Quanto tempo leva para colher?
De 90 a 120 dias do plantio, cortando a 25 cm do solo.
Ela é invasora no Brasil?
A Embrapa diz que ocorre em todo o território, de forma espontânea, e a considera invasora.
Fontes
- PEREIRA, R. C. A.; BRITO, F. N.; BEZERRA, M. G. A. Cultivo de plantas aromáticas. Fortaleza: Embrapa Agroindústria Tropical, 2017. 49 p. (Documentos, 176).
- MAIA, S. S. S. et al. Germinação de sementes de Hyptis suaveolens (L.) Poit. (Lamiaceae) em função da luz e da temperatura. Revista Caatinga, v. 21, n. 4, p. 212-218, 2008.
- OUARTE, N. F.; KARAM, O.; CRUZ, M. B. Efeito de luz e temperatura na germinação de sementes de betônica. Resumo, XXV Congresso Brasileiro da Ciência das Plantas Daninhas, 2006.
- RAIZADA, P. Ecological and vegetative characteristics of a potent invader, Hyptis suaveolens Poit. from India. Lyonia, dez. 2006.
- PEREIRA, L. C. O. Caracterização química de óleos essenciais de quatro espécies da família Lamiaceae. Trabalho de conclusão de curso, UFPB, 2015.

