Plantas nativas brasileiras para varandas e apartamentosGuias com fonte citada • leitura gratuita

Salitre do Chile: o que é, de onde vem e o que o sódio faz no vaso da varanda

Salitre do Chile é nitrato de sódio: 16% de nitrogênio e cerca de 27% de sódio, tirado do deserto do Atacama. Veja a origem, os riscos do sódio em vaso e as alternativas.

Entrada de Humberstone, no deserto do Atacama, com a bandeira do Chile e a placa do sítio

Salitre do Chile é o nome popular do nitrato de sódio (NaNO₃), um sal mineral que a
natureza deixou em camadas no deserto do Atacama, no norte do Chile, e que sustentou uma indústria que a UNESCO
liga à transformação da agricultura no século XIX. Ele tem cerca de 16% de nitrogênio e cerca de
27% de sódio. Esse segundo número é o que explica quase tudo o que importa para quem
cultiva em vaso.

Como este guia foi feito: os números de composição, de índice salino e de efeito no solo vêm de dois
relatórios técnicos do programa orgânico do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), de 2002 e
2011, lidos na íntegra. A parte histórica vem da ficha da UNESCO sobre as oficinas salitreiras de Humberstone
e Santa Laura. O nome e a fórmula vêm do Infoescola, e a confusão com o outro salitre, do Agrolink. Esses
relatórios falam de lavoura, e não de vaso: o que é adaptação para a varanda aparece marcado como
inferência. Ninguém da equipe está relatando experiência própria aqui. Nenhuma das
fontes traz dose para vaso, e por isso este guia não inventa uma.

Primeiro, confira o rótulo: existem dois “salitres”

A palavra salitre é usada para mais de um sal, e a confusão é comum na hora de comprar.

  • Salitre do Chile = nitrato de sódio (NaNO₃). O Infoescola registra esse nome
    e aponta Argentina, Bolívia, Chile e Peru como detentores das principais reservas naturais.
  • Salitre também é usado para o nitrato de potássio (KNO₃), que o Agrolink
    descreve com no mínimo 44% de potássio (K₂O) e 12% de nitrogênio na forma nítrica. É outro produto, com
    outra função: fornece potássio, e não sódio.

Tudo o que este guia diz sobre sódio vale só para o nitrato de sódio. Se o saco diz
“nitrato de potássio”, o assunto muda. E um terceiro uso do nome, o “salitre” que
aparece como mancha branca na parede, é outro fenômeno e não é tratado aqui.

De onde vem: do cocô de ave marinha ao caliche

O relatório do USDA conta que o adubo nitrogenado mineral começou com o guano: por volta
de 1840, o comércio passou a explorar ilhas áridas na costa do Chile e do Peru, onde excremento de aves
marinhas se acumulou por milhares de anos, em barrancos inteiros. Esses depósitos se esgotaram rápido, e por
volta de 1870 o mercado se voltou para jazidas bem maiores, no deserto do Atacama.

O que se extrai ali se chama caliche: um conglomerado bruto de sais, em camada de alguns
centímetros de espessura, que ocorre em uma faixa de cerca de 30 km de largura por 700 km de
comprimento
. Além do nitrato de sódio, o caliche tem sulfatos, cloretos de sódio, cálcio e
potássio, magnésio e micronutrientes como boro, iodato e perclorato. A origem é incerta: o relatório diz que
ele se formou possivelmente por fixação de nitrogênio por microrganismos em lagos de planície salina
e solos próximos, há 10 a 15 milhões de anos.

Rua de Humberstone com vagonetes de minério e casas de madeira ao fundo
Rua de Humberstone, com vagonetes usados no transporte do minério. Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. página da foto.

A extração é de mina a céu aberto. Tira-se a cobertura do terreno (em geral 1 a 2 m de espessura), tritura-se
o minério e dissolve-se o sal em água morna, a cerca de 35 °C. No processo Guggenheim, a lixiviação é feita em
grandes tanques, em contracorrente, e o nitrato de sódio é cristalizado e separado em centrífuga. O produto
purificado tem no mínimo 97% de NaNO₃. Na mesma operação se recuperam sulfatos, potássio e
iodo.

Uma indústria que mudou a agricultura (e uma cidade que virou patrimônio)

A UNESCO resume o papel do salitre: as minas do norte do Chile se tornaram as maiores produtoras de
salitre natural do mundo
, e o adubo que elas geraram “indiretamente apoiou a revolução
agrícola do final do século XIX em muitas partes do mundo”
(tradução livre). A indústria também deixou marca social: a
cultura própria dos “pampinos”, que viviam nas vilas das oficinas, e a agenda pioneira dos
sindicatos de trabalhadores do salitre, que a UNESCO diz ter tido efeito amplo sobre as leis trabalhistas no
Chile e fora dele.

Dois desses povoados sobrevivem: Humberstone e Santa Laura, na província de Iquique,
inscritos como Patrimônio Mundial em 2005. Santa Laura guarda a parte industrial, incluindo
o único galpão de lixiviação ainda intacto; Humberstone guarda a área residencial, com praça, ruas em
quadrícula e prédios comunitários. O sítio foi declarado Monumento Nacional do Chile em 1970 e saiu da lista
do Patrimônio Mundial em Perigo em 2019.

Rua de terra de Humberstone com casas de madeira em ambos os lados
Humberstone e Santa Laura são Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2005. Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. página da foto.

Por que ele foi tão usado: nitrogênio pronto, que age rápido

Segundo os relatórios, o salitre do Chile tem várias qualidades agronômicas, e elas explicam sua fama:

  • Todo o nitrogênio já está na forma de nitrato, pronto para a raiz absorver. Não precisa
    esperar a mineralização, como acontece com adubo orgânico.
  • Age mais rápido que o nitrogênio de adubos sintéticos, segundo o relatório de 2011.
  • Não acidifica o solo. O relatório descreve efeito neutralizante sobre a acidez.
  • Não perde nitrogênio para o ar na forma de amônia (não volatiliza).
  • Funciona bem no frio e quando o solo está ácido, quando a decomposição de matéria
    orgânica anda devagar.

As culturas citadas pelo relatório são fumo, hortaliças, beterraba açucareira e algodão, além de qualquer
cultura em solo ácido. A propaganda do “Nitrato de Chile” ainda sobrevive em painéis de azulejos, como o da foto abaixo,
em Santa Cruz de La Palma, na Espanha.

Painel de azulejos com um cavaleiro e a frase Abonad con Nitrato de Chile em fachada
Propaganda de época do Nitrato de Chile, em painel de azulejos em Santa Cruz de La Palma (Espanha). Foto: Marc Ryckaert / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. página da foto.

Hoje o peso dele é pequeno. Em 2001, os agricultores americanos compraram 75.000 toneladas de nitrato do
Chile, o equivalente a 0,14% de todo o adubo aplicado no país. O Chile segue como origem de
mais de 90% do nitrato de sódio extraído no mundo.

O outro lado: 27% de sódio

O mesmo relatório que elogia o nitrogênio descreve o problema com a mesma clareza. Em água, o nitrato de
sódio se separa em nitrato (que a planta usa) e sódio (que fica). A diferença de destino é
a chave:

  • O nitrato é móvel. Se a planta não pegar, ele desce com a água.
  • O sódio é retido. O solo tem carga negativa e prende cátions como o sódio muito mais
    forte do que prende o nitrato. Resultado: o sódio não lixivia do perfil do solo, e a planta não
    absorve o suficiente para reduzir a carga.

O sódio acumulado eleva o pH e desfaz os agregados do solo. O solo vira o que a literatura
chama de sódico: disperso, duro quando seca, fácil de compactar, com pouca infiltração de água e pouca
aeração. Como o cálcio segura as partículas juntas e o sódio segura muito mal, a drenagem piora, e a
drenagem pior acelera o acúmulo de sal. O relatório resume que deficiências causadas por sal são
mais difíceis de remediar que deficiências de nutriente.

Como o índice salino mostra isso

Os agrônomos medem o efeito de sal dos adubos pelo índice salino, que usa o próprio
nitrato de sódio como referência: nota 100.

Adubo nitrogenado Índice salino
Nitrato de sódio (16,5% N), o salitre do Chile 100,0 (é a referência da escala)
Nitrato de amônio (34% N) 104,0
Sulfato de amônio (21% N) 88,3
Ureia (46% N) 74,4
Nitrato de cálcio (15,5% N) 65,0
Amônia anidra (82% N) 47,1
Calcário (35% Ca) 4,7
Dolomita (21,5% Ca, 11,5% Mg) 0,8
Índice salino (Salt Index): medida relativa da concentração de sais que cada material provoca na solução do solo. Dados de A & L Great Lakes Laboratories (2002), reproduzidos na Tabela 2 do relatório técnico do USDA de 2011.

Repare que o nitrato de sódio não é o pior da lista: o nitrato de amônio tem nota ligeiramente maior. O
que o diferencia é que a salinidade vem acompanhada de sódio, o íon que estraga a estrutura
do solo.

Sinais de excesso de sal

Sal em excesso dificulta a planta de tirar água do solo, o que o relatório descreve em termos de potencial
osmótico. Ele atrapalha a germinação e danifica plantas em crescimento. Os sinais listados: folhas que escurecem,
ficam azuladas ou amareladas, caem ou parecem queimadas, e plantas atrofiadas com folhas
menores do que o normal. O relatório de 2002 cita também um estudo em que aplicações pesadas de nitrato do
Chile causaram podridão severa da coroa em bulbos de cebola. Esses sintomas se confundem facilmente com falta
de água, e por isso vale ler como diferenciar excesso de falta de rega antes de culpar o adubo, e
como reconhecer o acúmulo de sais no vaso.

E no vaso da varanda?

Inferência, porque as fontes tratam de lavoura e não medem vasos. O que elas mostram é que o
sódio fica onde a chuva não lava e a drenagem é ruim. Uma varanda coberta, com vaso sobre prato, é exatamente
esse cenário: a água de rega que sai pelo fundo pode voltar pelo prato, e a chuva que lavaria o sal não
chega. Há um segundo fator, o tamanho: o vaso tem um volume pequeno de substrato, então qualquer sal
adicionado se concentra mais rápido do que num canteiro.

Por isso, para plantas em vaso, não recomendo o salitre do Chile como adubo de rotina. Duas
contas simples com os números dos relatórios mostram o porquê:

  • Cada 1 g de nitrogênio exige cerca de 6,25 g de produto (1 ÷ 0,16), o que traz junto cerca
    de 1,7 g de sódio (6,25 × 0,27). Se o sódio ficar no vaso como fica no solo estudado, a conta só
    cresce a cada adubação.
  • O relatório calcula que, para fornecer o mesmo nitrogênio, esterco cru de galinha adiciona cerca de
    um décimo do sódio
    do nitrato do Chile. Mas ele mesmo alerta que o esterco compostado pode
    adicionar mais sódio do que o cru, porque é preciso aplicar mais material para entregar o mesmo nitrogênio.

O preço da alternativa também aparece no relatório: ela é lenta. Uma tonelada de salitre tem cerca de 320
libras de nitrogênio (16%), enquanto uma tonelada de material de compostagem tem cerca de 24 libras
(aproximadamente 1,2%). O adubo orgânico não resolve falta urgente de nitrogênio, mas alimenta o substrato sem
somar sal. Para a varanda, o caminho mais coerente com o resto deste site é
bokashi na dose que a pesquisa mediu,
composto bem curtido e biocarvão, em um
substrato que drena bem.

Se mesmo assim você já tem o produto em casa: o relatório recomenda monitorar e analisar o solo antes de
aplicar. Por minha conta (inferência): use pouco, não aplique em substrato que já mostra
crosta branca e fique atento aos sinais acima. O pH também conta, e
o pH do substrato no vaso merece uma olhada antes de qualquer adubo.

Segurança: é um oxidante

O nitrato de sódio é um oxidante forte. O relatório do USDA registra que ele é considerado
perigoso no transporte e deve ser guardado em local fresco e seco, longe de materiais inflamáveis
ou facilmente oxidáveis
, não deve ficar sobre piso de madeira, e deve ser manuseado com
luvas de borracha e óculos de proteção. A poeira irrita as vias respiratórias. O Infoescola
acrescenta que o contato com pele e olhos causa irritação, e que ele não é inflamável mas favorece a combustão.

Por prudência, guarde o saco bem fechado, longe de crianças, animais e de adubos orgânicos secos. Este site
não faz orientação de saúde.

Perclorato e água

Duas preocupações aparecem nos relatórios, ambas fora do escopo de uma varanda, mas que ajudam a entender por
que o produto é controverso. A primeira é o perclorato, presente no caliche: em concentrações
suficientes, interfere na captação de iodo pela tireoide, e o relatório de 2002 diz que o impacto ecológico
dele é pouco conhecido. A segunda é que o nitrato é muito móvel e pode chegar à água subterrânea, e a ingestão
em água contaminada está ligada à metemoglobinemia. Isso descreve contaminação de água em escala de lavoura,
e não o consumo de uma alface adubada em casa.

E na agricultura orgânica?

O relatório de 2011 registra que o nitrato de sódio é proibido pela IFOAM (a federação
internacional de agricultura orgânica) e pela maioria dos padrões orgânicos, incluindo o do Canadá. Nos Estados
Unidos, na época do relatório, era permitido apenas como no máximo 20% da necessidade total de nitrogênio da
cultura, e a lista estava em revisão. As regras mudam, e eu não verifiquei a norma brasileira de
orgânicos atualmente vigente
: quem produz para vender ou certificar precisa consultar a norma do
Ministério da Agricultura em vigor, e não este texto.

Perguntas frequentes

Salitre do Chile é a mesma coisa que nitrato de sódio?
Sim. É o mesmo composto, NaNO₃. O que muda é o nome: salitre do Chile para o material de origem mineral, do
deserto do Atacama.

É o mesmo salitre que nitrato de potássio?
Não. O nitrato de potássio também é chamado de salitre, mas fornece potássio (no mínimo 44% de K₂O e 12% de
nitrogênio, segundo o Agrolink), e não sódio. Confira o rótulo.

Quanto de nitrogênio tem?
Cerca de 16%. O sódio fica em cerca de 27%.

É adubo orgânico?
É de origem mineral e natural, não sintético, mas não é “orgânico” no sentido de matéria
orgânica, e é proibido pela IFOAM. A regra brasileira para certificação eu não verifiquei.

Dá para usar em vaso?
Nenhuma fonte consultada traz dose para vaso. Pela conta feita acima, cada grama de nitrogênio vem com mais de
1,5 g de sódio, e o sódio não sai do vaso sozinho. Para varanda, adubos orgânicos são a escolha mais segura.

Por que o sódio é um problema se a planta só quer o nitrogênio?
Porque o nitrato é usado ou lavado, e o sódio fica. Com o tempo ele destrói a estrutura do solo e dificulta a
absorção de água pela raiz.

Ainda se extrai salitre no Chile?
Sim. O relatório de 2011 diz que o Chile segue como origem de mais de 90% do nitrato de sódio minerado no
mundo, embora ele represente uma fração minúscula do adubo nitrogenado usado hoje.

Dá para conhecer onde ele era processado?
Humberstone e Santa Laura, na província de Iquique, são hoje sítio de Patrimônio Mundial da UNESCO, inscrito em
2005. Não verifiquei horários nem condições de visita.

Fontes

Artigos relacionados

LE
Equipe Varanda Nativa

Conteúdo preparado com foco em clareza, utilidade e consulta a fontes reconhecidas. Veja nossa Política Editorial para conhecer o processo.

Plataforma de Gestão de Consentimento by Real Cookie Banner