Quem lê sobre bokashi encontra sempre a mesma dose: tantos gramas por metro quadrado. Só que varanda não tem metro quadrado de canteiro, tem vaso. A pergunta prática é outra: quanto bokashi por vaso? Duas pesquisas da Universidade Estadual de Londrina responderam isso medindo planta por planta, e o resultado tem uma surpresa: passar da dose piora o crescimento.
Como este guia foi feito: ele se baseia em dois estudos da UEL com orquídeas em vaso, lidos na íntegra, e em dois vídeos de profissionais brasileiros, cujas transcrições também foram lidas na íntegra e cujos trechos aparecem creditados. O que é adaptação para a varanda aparece marcado como inferência. Não há relato de experiência própria aqui.
A dose por vaso, medida de 1 em 1 grama
No Departamento de Agronomia da UEL, pesquisadores adubaram a orquídea Dendrobium nobile, o conhecido “olho de boneca”, com doses crescentes de bokashi farelado:
- Doses: 0, 1, 2, 3, 4, 5 e 6 gramas por vaso.
- Vaso: plástico de 415 mL (7,5 cm de altura e 10,5 cm de boca).
- Substrato: casca de pinus e carvão vegetal em partes iguais, com cacos cerâmicos no fundo para drenar.
- Como: o bokashi foi espalhado sobre o substrato, repetido a cada 90 dias.
- Duração: um ano, de dezembro de 2016 a dezembro de 2017.
- Comparação: plantas sem adubo e plantas com NPK mineral.
O resultado: existe um ponto de virada
A resposta ao bokashi foi quadrática, ou seja, cresce até certo ponto e depois cai. Os autores registram “reduções das variáveis fitométricas na maior dose“. As doses de máxima eficiência calculadas foram:
| Parte da planta | Dose de máxima eficiência |
|---|---|
| Massa seca das folhas | 5,31 g por vaso |
| Massa seca dos pseudobulbos | 5,48 g por vaso |
| Massa seca das raízes | 4,03 g por vaso |
A recomendação final do trabalho é de 3,5 a 5,0 g de bokashi por vaso para essa orquídea, a cada 90 dias. Nessa faixa, o bokashi superou a adubação mineral com NPK.
O detalhe que mais importa para a varanda: a raiz foi a parte que começou a piorar mais cedo, com máximo em 4,03 g. Ou seja, quem exagera na dose prejudica primeiro justamente a raiz, que é o que sustenta a planta no vaso.
Misturar no substrato ou jogar por cima?
A segunda pesquisa, publicada na revista Ornamental Horticulture, testou como aplicar. E usou uma orquídea nativa brasileira, a Oncidium baueri, em vasos de 14 cm de boca, por 12 meses.
Foram seis tratamentos: adubo químico 20:20:20, um saquinho de estopa com 10 g de bokashi apoiado na superfície, bokashi incorporado ao substrato a 10 e a 20 g por litro, e bokashi diluído em água e aplicado nas folhas, a 10 e a 20 g por litro.
| Tratamento | Folhas | Pseudobulbos | Raiz mais longa |
|---|---|---|---|
| Adubo químico (controle) | 18,1 | 4,3 | 16,5 cm |
| Saquinho de 10 g na superfície | 26,1 | 5,7 | 17,6 cm |
| 10 g/L misturado no substrato | 29,6 | 6,1 | 16,9 cm |
| 20 g/L misturado no substrato | 31,1 | 7,1 | 23,7 cm |
| Foliar, 10 g/L | 15,9 | 4,3 | 22,4 cm |
| Foliar, 20 g/L | 19,9 | 3,9 | 22,4 cm |
Três conclusões saem daí:
- Todos os tratamentos com bokashi superaram o adubo químico no crescimento vegetativo.
- Misturar no substrato foi melhor que pôr por cima, e muito melhor que pulverizar nas folhas. A melhor dose, 20 g por litro de substrato, aumentou o comprimento da parte aérea em 359% e o número de pseudobulbos em 138% em relação ao início.
- A eficiência fotossintética ficou normal em todos os casos, ou seja, nenhum tratamento estressou a planta.
O bokashi usado tinha torta de mamona, farelo de arroz, farelo de trigo, farinha de ossos, pó de rocha basáltica e cepas de Bacillus, Lactobacillus e Saccharomyces cerevisiae.

Como saber se o seu bokashi deu certo
Medir grama é fácil. Difícil é saber se o bokashi que você fermentou, ou comprou, prestou. O engenheiro agrônomo André Fogtman, do canal Plantas Sem Mistério, abriu em vídeo um bokashi que ele mesmo preparou, depois de pouco mais de 21 dias fechado, e mostrou os sinais:
Os sinais de que fermentou bem, segundo o vídeo
- Cor: “uma cor bonita, bem escurecida”; o aspecto fica farelado, marrom, nem muito claro nem muito escuro.
- Umidade: “tá úmido, mas não tá encharcado”.
- Cheiro, o principal: “cheiro agridoce”, “um cheirinho de fermentado suave”, que ele compara ao cheiro de Yakult. E contrasta: é diferente do cheiro de torta de mamona e de farinha de osso, “que fede”.
- Sem larvas: o saco estava bem amarrado, “para não entrar bicho, não entrar larva de mosca”.
O teste do mofo branco
O sinal mais curioso vem depois de aplicar. Segundo o agrônomo, um bokashi bom mofa: “se ele criar um mofo rápido, em poucos dias, é sinal que esse bokashi está ótimo”, e “quanto maior o mofo, melhor a qualidade”. No vídeo ele aplica o bokashi no dia 16 de janeiro e volta no dia 20, quatro dias depois, mostrando o “mofinho branco” crescendo sobre o adubo.
E o recado para quem se assusta: esse mofo não faz mal à planta e não precisa ser retirado, porque são os microrganismos benéficos trabalhando.
Atenção ao tipo de mofo: o relato trata de mofo branco sobre o adubo já aplicado. Mofo esverdeado ou azulado dentro do balde, acompanhado de cheiro podre, é o sinal contrário. No guia anterior, as medições da Embrapa mostram que cheiro de amônia indica fermentação errada. Veja Bokashi em 14 dias: o que acontece no balde.
Quanto tempo o bokashi dura guardado
Ainda no mesmo vídeo:
- Fechado, sem nunca abrir: até um ano, porque depois de atingir o ponto de fermentação ele se mantém estável.
- Depois de aberto: de 6 meses a um ano, em saco ou pote bem vedado e com o mínimo de ar possível.
- Se ficar aberto: enche de larva de mosca, começa a cheirar mal e “vai querer virar aquele húmus tradicional”, ou seja, deixa de ser bokashi e vira composto comum. Sobre o ponto do composto, veja Como saber se o composto orgânico está pronto.
Dois avisos antes de sair adubando
O biólogo Samuel Gonçalves, doutor em botânica, fez uma revisão da bibliografia científica sobre bokashi no canal Um Botânico no Apartamento e destacou duas restrições que interessam a quem mora em apartamento:
- Pets. O bokashi tradicional leva torta de mamona, que é tóxica para cães e gatos. Ele recomenda não usar bokashi com torta de mamona quando o animal tem acesso à base da planta, preferir misturar ao substrato em vez de deixar na superfície e jamais deixar a embalagem ao alcance do animal.
- Suculentas. Como o bokashi aumenta a matéria orgânica no substrato, ele não é indicado para suculentas, que não gostam de matéria orgânica em excesso. Para folhagens, segue recomendado.
Ele também cita a composição média levantada numa revisão de 20 anos de estudos no Brasil: cerca de 4% de nitrogênio e de 2% a 3% de fósforo e de potássio. E resume a regra de ouro: “para adubação, menos é mais”.
A dose traduzida para a sua varanda
Juntando as duas pesquisas e o vídeo, dá para montar uma tabela prática. As linhas de vaso pequeno vêm das medições; as demais são inferência a partir da proporção por litro de substrato.
| Situação | Dose | Origem |
|---|---|---|
| Vaso pequeno, até cerca de 0,5 L, adubação de manutenção | 3,5 a 5 g por vaso, a cada 90 dias, espalhado sobre o substrato | Medido (UEL, Dendrobium) |
| Vaso pequeno, até cerca de 14 cm de boca | Uma colher de café no cantinho do vaso, a cada 2 ou 3 meses | Vídeo (agrônomo André Fogtman) |
| Na hora de plantar ou replantar | 10 a 20 g por litro de substrato, misturado | Medido (UEL, Oncidium) |
| Vaso de 20 cm de boca ou maior | Cerca de uma colher de sopa no canto | Vídeo |
| Vaso grande, de 15 a 20 litros | Duas colheres de sopa | Vídeo |
| Canteiro ou jardineira grande | 300 g por m² | Vídeo |
Uma referência útil: um vaso de 14 cm de boca tem perto de 1,5 litro. Pela proporção do estudo com a Oncidium, isso daria algo em torno de 15 a 30 g misturados no substrato, uma única vez, no plantio. É diferente da dose de manutenção, que é menor e repetida a cada três meses.
Outros cuidados
- Não encoste o bokashi no caule nem no miolo da planta: no vídeo, ele é sempre colocado no canto do vaso.
- Crosta: aplicado em cobertura, o bokashi tende a formar uma crosta fina. Em vaso, segundo o agrônomo, isso não chega a ser problema e se dissolve com o tempo.
- Substrato que drena continua sendo a base de tudo. Veja Substrato drenante para plantas nativas em vasos e Como escolher o tamanho do vaso.
Conclusão
A pesquisa brasileira já mediu a dose de bokashi por vaso, e ela é pequena: de 3,5 a 5 gramas a cada 90 dias num vaso de meio litro, com queda de desempenho acima disso, a começar pelas raízes. Na hora de plantar, misturar 10 a 20 g por litro de substrato rendeu mais que deixar por cima e muito mais que pulverizar nas folhas. E, para saber se o seu bokashi presta, valem os dois testes do agrônomo: cheiro agridoce, de fermentado, e mofo branco aparecendo poucos dias depois de aplicado.
Fontes
- PAULA, J. C. B. de; RIBEIRO JÚNIOR, W. A.; MORAES, K. A. M. de; SHIMIZU, G. D.; FARIA, R. T. de. Desempenho de Dendrobium nobile Lindl. adubado com bokashi e torta de mamona. Científica, Dracena, v. 53, n. 1, 2025. Universidade Estadual de Londrina.
- PEDRO JUNIOR, S.; SILVA, V. F. A. da; TEJO, D. P.; PEREIRA, J. P. C.; OLIVEIRA, H. C. de; FARIA, R. T. de. Nutrient allocation and growth responses of Oncidium baueri to different Bokashi application methods. Ornamental Horticulture, v. 32, e322993, 2026. Universidade Estadual de Londrina.
- FOGTMAN, A. Bokashi: resultado do preparo e dicas de utilização. Canal Plantas Sem Mistério, 20 jan. 2022. Vídeo (15 min).
- GONÇALVES, S. Composto de bokashi: o melhor fertilizante orgânico para o seu jardim e plantas. Canal Um Botânico no Apartamento, 5 maio 2022. Vídeo (11 min).

