O bokashi virou assunto de grupo de horta, de vídeo curto e de loja de jardinagem. A palavra vem do japonês e quer dizer “matéria orgânica fermentada”. O motivo do barulho é simples: é um adubo feito em casa, em recipiente fechado, sem o cheiro de lixo de uma composteira mal cuidada. E dá para acompanhar a fermentação pelo cheiro e pelo pH.
A Embrapa Agrobiologia fez exatamente isso. Abriu potes de bokashi no dia 0 e depois a cada 3 dias até o 21º, mediu o pH e classificou o cheiro. Este guia conta o que acontece nas duas primeiras semanas.
Como este guia foi feito: este texto se baseia no Boletim de Pesquisa 114 da Embrapa Agrobiologia (2024) e na ficha agroecológica nº 19 do Ministério da Agricultura, ambos lidos na íntegra. O que é adaptação para varanda aparece marcado como inferência. Ninguém da equipe está relatando uma experiência própria aqui: os números vêm das fontes listadas no fim.
Primeiro: existem dois “bokashis”
Quando alguém fala em bokashi, pode estar falando de duas coisas diferentes:
- Bokashi de farelo (composto farelado): farelos de cereais e tortas vegetais umedecidos com microrganismos e fermentados em saco ou balde fechado. É o adubo que a Embrapa e o Ministério da Agricultura descrevem.
- Balde bokashi de cozinha: restos de comida em camadas, polvilhados com farelo já inoculado, num balde com torneira. É o da foto mais abaixo.
As medições deste guia são do bokashi de farelo. A lógica da fermentação é a mesma no balde de cozinha, mas os prazos dele não foram medidos nessas fontes.
Os ingredientes, segundo o Ministério da Agricultura
| Função | Exemplos da ficha nº 19 |
|---|---|
| Farelo de cereais | Arroz, trigo, cevada; ou mandioca e milho triturados |
| Torta de oleaginosa | Mamona, girassol, amendoim |
| Energia para os microrganismos | Açúcar mascavo, rapadura, cana, bagaço de cana |
| Fonte de microrganismos | Terra de mata ou de barranco, microrganismos eficientes |
| Farinha animal (opcional) | Peixe, carne ou osso |
No experimento da Embrapa, a receita-padrão foi 60% de farelo de trigo e 40% de farelo de mamona, em peso. O estudo mostrou que o farelo de trigo, que é a fonte de energia, precisa ser pelo menos 40% da mistura. Com mais mamona do que isso, o pH quase não caiu: com 80% de mamona, ficou em 6,42.
Atenção em apartamento com pets: o farelo e a torta de mamona vêm de uma semente tóxica para pessoas e animais se ingerida. Guarde a mistura e o composto pronto fora do alcance de cães e gatos. Outra opção é usar as tortas de girassol ou de amendoim que a ficha do Ministério também lista.
A umidade certa: o teste do punho
A Embrapa recomenda 450 mL de solução com microrganismos por kg da mistura seca de farelos, para chegar a pelo menos 35% de umidade. Se a massa não formar um torrão firme, pode-se pôr mais solução até o limite de 580 mL por kg, que mantém a umidade abaixo de 40%.
O ponto certo é um torrão estável quando se aperta: não esfarela e não escorre líquido. Passando de 600 mL por kg, o líquido começou a vazar pela tampa e o pH voltou a subir. É o sinal de fermentação ruim.
Dia a dia: o que a Embrapa mediu
Os potes ficaram fechados numa sala entre 28 °C e 29 °C. O pH inicial da mistura era 6,1. A meta da literatura citada no boletim é chegar entre 4,5 e 5,5, faixa em que bactérias indesejadas como as do gênero Clostridium não se desenvolvem.
| Momento | O que acontece |
|---|---|
| Dia 0 | Farelos úmidos, compactados e fechados. pH em torno de 6,1. |
| Dias 3 e 6 | Fermentação em andamento: bactérias láticas e leveduras convertem açúcares em ácidos e o pH começa a cair. |
| Dia 9 | O cheiro passa a ser classificado como adocicado, parecido com pão. pH estimado de 4,78. É o prazo mínimo definido no boletim para uso. |
| Dias 12 a 15 | A acidez continua aumentando. |
| Cerca de 16,5 dias | Acidez máxima: pH estimado de 4,41. |
| Dia 21 | Última avaliação do experimento. |
Na prática, com 14 dias o bokashi já passou do mínimo de 9 dias e está perto da acidez máxima. A ficha do Ministério dá uma faixa parecida para a versão sem ar: de 15 a 20 dias, em saco plástico preto ou tambor bem fechado, sem revirar.

Cheiro bom e cheiro ruim
- Cheiro de pão (adocicado): fermentação adequada.
- Cheiro de pão com álcool: “muito adocicado” na classificação do boletim.
- Cheiro fétido, de amônia: fermentação errada. O boletim liga isso à via butírica e alerta para possível presença de Clostridium. Não use.
Se o saco estufar e aparecerem moscas, a ficha do Ministério avisa: moscas podem indicar que o saco está furado.
Por que tanta gente fala do bokashi
- É concentrado. Com trigo e mamona, o boletim cita de 35 a 45 g de nitrogênio por kg, acima dos estercos comuns de aves e bovinos.
- Sai barato. A estimativa da Embrapa foi de R$ 1,10 por kg, com farelos comprados na Ceasa do Rio de Janeiro.
- Guarda bem. Fechado, o composto pode ficar no recipiente por tempo indeterminado. Se a camada de cima aparecer com fungo branco ao reabrir, o boletim diz que basta misturar com o resto e usar.
- Não cheira mal se feito direito. Esse é o motivo de ele caber num apartamento.
Como pode ser útil para você na varanda
Na horta de canteiro estudada, a dose foi de 1 kg por m² para alface e cebolinha, 1,25 kg para cenoura e 1,5 kg para alho-poró.
Inferência para vaso: uma jardineira de 1 m por 20 cm tem 0,2 m². Pela mesma proporção, receberia cerca de 200 g de bokashi, misturados ao substrato antes do plantio. Comece abaixo disso em vasos pequenos, porque o composto é concentrado.
Dois cuidados da ficha do Ministério:
- Abóbora, melão, melancia, abobrinha e pepino são sensíveis a doses altas de composto de farelo.
- Se você incorporar material vegetal triturado junto com o bokashi, espere alguns dias antes de plantar.
Para restos de cozinha, a Composteira compacta para varanda: passo a passo continua sendo o caminho mais simples. O bokashi de farelo entra como adubo de plantio.
Conclusão
O bokashi faz sucesso porque fermenta fechado, cheira a pão quando dá certo e sai barato. As medições da Embrapa dão um calendário claro: 9 dias no mínimo, com acidez máxima perto do 16º dia, a cerca de 30 °C. Em duas semanas você já tem um adubo concentrado para usar com moderação nos vasos. Se cheirar a amônia, descarte e recomece.
Fontes
- GOULART, J. M. et al. Compostos fermentados do tipo Bokashi: formulações, fontes de inóculo, indicadores de qualidade e estimativa do custo de produção. Seropédica: Embrapa Agrobiologia, 2024. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 114).
- BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Coordenação de Agroecologia. Composto farelado (Bokashi). Ficha agroecológica: Fertilidade do solo e nutrição de plantas, n. 19.

