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Bromélia dá dengue? O que o estudo da Fiocruz mostrou e o que fazer com os pratinhos da varanda

Em 120 bromélias do Jardim Botânico do Rio, a Fiocruz achou só 2 larvas de Aedes aegypti em 2.816 coletadas. Entenda o estudo, os limites dele e o cuidado que realmente importa na varanda: o pratinho.

Bromélia Neoregelia com água acumulada no centro da roseta

Todo verão a pergunta volta: bromélia dá dengue? A resposta curta, segundo um estudo da Fiocruz feito no Rio de Janeiro, é que as bromélias acumulam água, mas quase não produzem o mosquito Aedes aegypti. Em um ano de coletas, foram encontradas só 2 larvas de Aedes aegypti entre 2.816 larvas e pupas de mosquito. O criadouro que pesou de verdade estava nas casas vizinhas: vasos, ralos, bacias e pratinhos.

Como este guia foi feito: este texto se baseia no artigo de Mocellin e colaboradores (Instituto Oswaldo Cruz, 2009), lido na íntegra, e no Guia básico de dengue da SUCEN, órgão da Secretaria da Saúde de São Paulo. O que é adaptação para varanda aparece marcado como inferência. Ninguém da equipe está relatando uma experiência própria aqui: os números vêm das fontes listadas no fim.

De onde vem o medo da bromélia

A bromélia guarda água entre as folhas, no chamado tanque ou nas axilas foliares. Larvas de Aedes aegypti e de Aedes albopictus já foram encontradas nesse ambiente no Brasil.

Por isso, em epidemias de dengue no Rio de Janeiro, em 2001-2002 e 2008, bromélias foram tratadas com inseticida, arrancadas ou até queimadas em jardins públicos e privados. O artigo da Fiocruz registra que isso foi feito sem saber se elas eram mesmo criadouros importantes.

Como o estudo foi feito

  • Local: Jardim Botânico do Rio de Janeiro, na borda que encosta nas casas do bairro da Gávea, área de dengue endêmica.
  • Distância das casas: menos de 200 m.
  • Plantas: 120 bromélias de 10 espécies, sorteadas, ao ar livre, sem inseticida havia pelo menos 10 meses.
  • Período: março de 2005 a fevereiro de 2006, com cada planta amostrada a cada três meses.
  • Método: toda a água das axilas era aspirada, medida e levada ao laboratório para identificar as larvas.

O que apareceu na água das bromélias

Mosquito Participação no total
Gênero Culex (nativos de bromélia) 77,2%
Gênero Wyeomyia (nativos de bromélia) 21,4%
Culex (Microculex) pleuristriatus, o mais comum 42,5%
Aedes albopictus 5 indivíduos (0,18%)
Aedes aegypti 2 larvas e nenhuma pupa (0,07%)

No mesmo período, uma vistoria da prefeitura nas casas vizinhas achou o índice de infestação predial de Aedes aegypti perto de 5%. Os criadouros positivos eram recipientes feitos pelo homem: ralos, vasos de planta, bacias, pneus e caixas-d’água.

Por que tão pouco Aedes?

Os autores levantam duas hipóteses. A primeira: as larvas de Aedes perderiam a competição para os mosquitos especialistas de bromélia, os Culex e Wyeomyia. A segunda: as fêmeas de Aedes simplesmente evitariam pôr ovos ali. O artigo cita um trabalho na Flórida (Lounibos e colaboradores, 2003) em que espécies de Wyeomyia reduziram o crescimento e a sobrevivência do Aedes albopictus no tanque da bromélia.

Bromélia Neoregelia vista de cima, com água no copo central
Foto: Forest and Kim Starr / Wikimedia Commons, CC BY 3.0 us. página da foto.

O limite do estudo, e por que ele importa para a sua varanda

O próprio artigo faz três ressalvas. Elas mudam a leitura para quem tem bromélia em apartamento.

  1. Foi um ano, em um lugar só. O resultado pode não se repetir em áreas urbanas mais alteradas.
  2. Bromélia de casa pode ser diferente. No Jardim Botânico havia muitos mosquitos nativos competindo. Em vaso de varanda, longe da mata, esses competidores podem ser raros. Os autores dizem que esse caso “merece ser investigado”.
  3. O formato da planta conta. O artigo cita estudo em que bromélias do gênero Neoregelia foram mais favoráveis ao Aedes albopictus do que as do gênero Billbergia.

Em resumo: a pesquisa não diz que bromélia é “proibida”, nem que ela é “inocente” em qualquer lugar. Ela mostra que, num jardim junto às casas, o problema estava nos recipientes artificiais. Na varanda, vale cuidar dos dois.

O que o guia oficial manda fazer com pratinhos e vasos

O Guia básico de dengue da SUCEN lista estas opções para pratos sob vasos de plantas. Basta adotar uma delas:

  1. Eliminar os pratos.
  2. Usar pratos justapostos, ou seja, colados ao vaso, sem espaço para juntar água.
  3. Emborcar os pratos sob os vasos.
  4. Tirar a água acumulada depois de regar e escovar as paredes internas do prato e as externas do vaso.
  5. Pôr areia grossa úmida no prato, em volta do vaso, até a borda.

A escova não é exagero. Segundo o mesmo guia, a fêmea põe os ovos fora da água, perto da linha d’água, grudados na parede do recipiente. E esse ovo resiste à seca por 6 meses a 1 ano. Esvaziar o prato sem esfregar a borda deixa os ovos lá.

E a bromélia?

Para bromélias, o guia recomenda trocar por planta que não acumule água. Enquanto isso não for feito, a orientação é regar abundantemente com mangueira sob pressão, duas vezes por semana, para lavar o tanque.

Na varanda de apartamento, a mangueira sob pressão nem sempre é viável. Inferência: o objetivo do guia é renovar a água do copo antes que uma larva complete o ciclo. Virar a planta para escorrer a água ou trocá-la com um jato forte de regador cumpre a mesma função.

Por que “duas vezes por semana”

Os prazos do guia explicam a frequência:

  • O embrião se desenvolve no ovo em 2 a 3 dias.
  • A fase de larva dura de 5 a 10 dias entre 25 °C e 29 °C.
  • A pupa dura cerca de 2 dias.
  • Do ovo ao adulto, o ciclo leva cerca de 8 dias em condições favoráveis.

Renovar a água a cada 3 ou 4 dias interrompe o ciclo antes do adulto voar. O adulto dificilmente voa mais de 100 metros, segundo o guia. Então o mosquito da sua varanda costuma nascer muito perto dela.

Checklist semanal da varanda

  1. Pratos: areia grossa até a borda ou prato colado ao vaso.
  2. Se usa prato com água para a rega por baixo, esvazie e esfregue a borda. Veja os prós e contras em Prato com água embaixo do vaso: ajuda ou atrapalha?.
  3. Bromélias: lave o copo central duas vezes por semana no calor.
  4. Ralos da varanda: sem água parada.
  5. Regadores, baldes e bacias: virados para baixo ou tampados.
  6. Bebedouros para aves e insetos: troque a água com frequência, como explicamos em Como criar pontos de água para aves e insetos na varanda.

Conclusão

A ciência brasileira já respondeu a parte principal da dúvida. Num ano de coletas, as bromélias do Jardim Botânico quase não produziram Aedes aegypti, enquanto as casas vizinhas tinham criadouros em vasos, ralos e bacias. Ainda assim, o estudo pede cautela com bromélias isoladas em apartamento. A rotina que resolve as duas coisas é simples: prato com areia ou sem água, borda escovada e copo da bromélia lavado duas vezes por semana.

Fontes

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Equipe Varanda Nativa

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